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2月23日 Especulações a Respeito da Filosofia de Kant1 Por que um homem tão racional quanto Kant conceberia a divindade de Deus e seu reino como algo que existe em si. Ele acreditava em Deus? Nunca disse que não. Então porque, para ele, o abstrato é a nossa realidade e o além existe por si? Ele foi um homem perseguido pela igreja, chegou a ser proibido pelo Rei Frederico Guilherme II, Rei da Prússia, de ensinar ou escrever sobre assuntos religiosos, um homem racional como ele só podia encontrar um meio de se safar desta... "eles vêm o que não vejo, portanto o meu mundo é o que vejo e o que vejo é abstrato, cada um interpreta de uma forma. O deles existe sem comprovação, portanto, existe em si mesmo, não tem como ser interpretado diferente, assim vou escrever de forma que não ofenda ninguém". Sua primeira obra "A Religião nos limites da Simples Razão" ocasionou a fúria da igreja. 2 Para Kant o ser humano deve responder três perguntas em sua vida: "O Que eu sei? O que devo fazer? O que devo esperar?" Nesta ordem. Muitas pessoas não passam da primeira e nem sequer chegam a uma conclusão sobre si mesma. Na verdade a pior fase da primeira pergunta é conhecer a si próprio. o problema é gostar tanto desta busca que não se acha incentivo algum para sair e procurar conhecer o mundo, principalmente com os governos e os meios dominantes incentivando esta individualidade absoluta. É interessante observar que já no século III A.C existia na China uma escola que Arthur Walley denominou Escola Ch´i cuja doutrina era chamada Hsin Shu ou "A Arte da Mente" que dizia que "O que um homem deseja conhecer é aquilo (mundo exterior). Mas seu meio de conhecer é isto (ele próprio). Como pode conhecer aquilo? Apenas pelo aperfeiçoamento disto". (A) Comparemos agora com a nossa realidade atual em que o Ocidente incentiva a individualidade. O Eu é a maior força incentivadora do mundo ocidental, o indivíduo acredita em si próprio acima de qualquer coisa e antes de tudo está a sua própria existência, o outro existe apenas em função do seu mundo e tudo o que existe é apenas porque existe o Eu. Até mesmo os mais fervorosos religiosos vêm o mundo desta forma. No Oriente todo indivíduo deveria buscar a anulação desta individualidade através de quatro passos: 1 - "Adaptação individual, inteligente e sempre renovada ao mundo espaço-temporal que está ao nosso redor; 2 - Experimentação criativa com possibilidades inexploradas; 3 - Aceitação de responsabilidade pessoal pela realização de atos inauditos praticados dentro do contexto da ordem social; 3 - Desapego ou Libertação da Ilusão (moksa)" (B) Notem que tudo o que se faz é tornar o "Eu quero" contra o "Tu deves" insuportável para se chegar a um único objetivo: A extinção total tanto do "Eu" quanto do "Tu". Portanto, nós do Ocidente estamos ainda na fase 1 ou até mesmo na fase 2 com possíveis exceções ao inteligente em 1 e criativa em 2. Muitos pulam estas duas fases para a fase 3 diretamente acreditando que desta forma estão realmente praticando algo que seja inaudito para a sociedade e esquecendo que eles como indivíduos continuam sendo insuportáveis ou até mesmo inadequados para as tarefas que se auto destinam. 3 “Os autonomeados guardiões da humanidade consideram o passo rumo à maturidade não apenas difícil, mas também muito perigoso. Depois de, primeiro, tornar suas criaturas domésticas estúpidas e impedi-las cuidadosamente de ousar dar sequer um passo fora do limite das correias da carroça às quais estão atreladas, eles lhes mostram os perigos que as ameaçam caso tentem prosseguir sozinhas. Ora, esse perigo não é tão grande, pois, depois de caírem algumas vezes, elas de fato finalmente aprenderiam a andar; mas um exemplo desse tipo as intimida e geralmente as amedronta, impedindo quaisquer tentativas futuras.” (Immanuael Kant, Revista Humanidades – O que é o Iluminismo, out-dez-1982)
(A) Arthur Waley, The Way And Its Power, The MacMillan Company, Nova York, 1949. Citado por Joseph Campbell em As Máscaras De Deus - Mitologia Oriental - Pg. 30, Editora Palas Athena, São Paulo, 1994. (B) Joseph Campbell em As Máscaras De Deus - Mitologia Oriental - Pg. 26/27, Editora Palas Athena, São Paulo, 1994.
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