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    April 17

    Sobre a Beleza - Zadie Smith

     

    O livro tem uma elegância no linguajar fenomenal, mas deixa a desejar na forma de condução da história. Os personagens são primorosos. A história dos conflitos entre as duas famílias intelectuais, do meio universitário, e das pessoas que os cercam é fascinante. Entretanto, a autora optou por nos conduzir através de eventos que levam a conflitos interessantes e que são cortados abruptamente ao final de um capítulo, quando você reinicia em outro capítulo o tempo já passou e aquele conflito já foi até mesmo esquecido e serve de alavanca para outro conflito que começa a surgir. A autora não aproveita os conflitos para desnudar seus personagens, deixa para a imaginação dos leitores descobrirem como os personagens superaram os conflitos. A única exceção é a explosão da personagem Zora ao descobrir que suas fantasias em relação ao personagem Carl não eram correspondidas, mesmo assim, a descrição desta explosão é relatada de forma tão patética que chega a ser cômica, sem um revelar dos personagens envolvidos sobre a situação acontecida. Aconteceu... Aconteceu e pronto, vamos em frente... Sobre a beleza mesmo, a autora passa por cima e nada diz. Apenas um soneto, roubado, segundo ela própria, de seu marido e colocado aleatoriamente no livro. O conflito entre os dois personagens (os patriarcas) que deveria ser central acaba sendo apenas uma discussão idiota e preconceituosa. Ao final do livro até pode-se entender porque eles se odiariam dali para frente, porém quando o livro inicia já se odeiam e isso não fica claro em momento algum do por que. Nas artes, a autora perde em poder analisar a musica e suas variações modernas, os patriarcas têm visões diferentes sobre a obra de Rembrand, porém a diferença não é exposta e nem debatida. É a típica cultura inútil que tem uma visão esfumaçada sobre tudo e não sabe nada de nada.

    February 23

    Especulações a Respeito da Filosofia de Kant

     
     
     

    1 Por que um homem tão racional quanto Kant conceberia a divindade de Deus e seu reino como algo que existe em si. Ele acreditava em Deus? Nunca disse que não. Então porque, para ele, o abstrato é a nossa realidade e o além existe por si? Ele foi um homem perseguido pela igreja, chegou a ser proibido pelo Rei Frederico Guilherme II, Rei da Prússia, de ensinar ou escrever sobre assuntos religiosos, um homem racional como ele só podia encontrar um meio de se safar desta... "eles vêm o que não vejo, portanto o meu mundo é o que vejo e o que vejo é abstrato, cada um interpreta de uma forma. O deles existe sem comprovação, portanto, existe em si mesmo, não tem como ser interpretado diferente,  assim vou escrever de forma que não ofenda ninguém". Sua primeira obra "A Religião nos limites da Simples Razão" ocasionou a fúria da igreja.

    2 Para Kant o ser humano deve responder três perguntas em sua vida: "O Que eu sei? O que devo fazer? O que devo esperar?" Nesta ordem. Muitas pessoas não passam da primeira e nem sequer chegam a uma conclusão sobre si mesma. Na verdade a pior fase da primeira pergunta é conhecer a si próprio. o problema é gostar  tanto desta busca que não se acha incentivo algum para sair e procurar conhecer o mundo, principalmente com os governos e os meios dominantes incentivando esta individualidade absoluta.

    É interessante observar que já no século III A.C existia na China uma escola que Arthur Walley denominou Escola Ch´i cuja doutrina era chamada Hsin Shu ou "A Arte da Mente"  que dizia que "O que um homem deseja conhecer é aquilo (mundo exterior). Mas seu meio de conhecer é isto (ele próprio). Como pode conhecer aquilo? Apenas pelo aperfeiçoamento disto". (A)  

    Comparemos agora com a nossa realidade atual em que o Ocidente incentiva a individualidade. O Eu é a maior força incentivadora do mundo ocidental, o indivíduo acredita em si próprio acima de qualquer coisa e antes de tudo está a sua própria existência, o outro existe apenas em função do seu mundo e tudo o que existe é apenas porque existe o Eu. Até mesmo os mais fervorosos religiosos vêm o mundo desta forma. No Oriente todo indivíduo deveria buscar a anulação desta individualidade através de quatro passos: 

    1 - "Adaptação individual, inteligente e sempre renovada ao mundo espaço-temporal que está ao nosso redor;

    2 - Experimentação criativa com possibilidades inexploradas;

    3 - Aceitação de responsabilidade pessoal pela realização de atos inauditos praticados dentro do contexto da ordem social;

    3 - Desapego ou Libertação da Ilusão (moksa)" (B) 

    Notem que tudo o que se faz é tornar o "Eu quero" contra o "Tu deves" insuportável para se chegar a um único objetivo: A extinção total tanto do "Eu" quanto do "Tu". Portanto, nós do Ocidente estamos ainda na fase 1 ou até mesmo na fase 2 com possíveis exceções ao inteligente em 1 e criativa em 2. Muitos pulam estas duas fases para a fase 3 diretamente acreditando que desta forma estão realmente praticando algo que seja inaudito para a sociedade e esquecendo que eles como indivíduos continuam sendo insuportáveis ou até mesmo inadequados para as tarefas que se auto destinam.

    3  “Os autonomeados guardiões da humanidade consideram o passo rumo à maturidade não apenas difícil, mas também muito perigoso. Depois de, primeiro, tornar suas criaturas domésticas estúpidas e impedi-las cuidadosamente de ousar dar sequer um passo fora do limite das correias da carroça às quais estão atreladas, eles lhes mostram os perigos que as ameaçam caso tentem prosseguir sozinhas. Ora, esse perigo não é tão grande, pois, depois de caírem algumas vezes, elas de fato finalmente aprenderiam a andar; mas um exemplo desse tipo as intimida e geralmente as amedronta, impedindo quaisquer tentativas futuras.” (Immanuael Kant, Revista Humanidades – O que é o Iluminismo, out-dez-1982)

     

     


     (A) Arthur Waley, The Way And Its Power, The MacMillan Company, Nova York, 1949. Citado por Joseph Campbell em As Máscaras De Deus - Mitologia Oriental -  Pg. 30, Editora Palas Athena, São Paulo, 1994.

      (B) Joseph Campbell em As Máscaras De Deus - Mitologia Oriental -  Pg. 26/27, Editora Palas Athena, São Paulo, 1994.

     

    December 23

    Série Duna - Frank Herbert

     

    Série Duna


    Frank Herbert


    Um clássico da literatura de ficção científica. Um universo fantástico em um mundo a milhões de anos luz da terra, que virou uma lenda, onde os humanos continuam com suas mesquinharias. Temos todos os tipos desfilando suas esquisitices: Os Harkonnen invejosos e vingativos, os Adreides virtuosos e ascendentes ao poder, os Corrino poderosos e dominantes, a Irmandade Bene Gesserit com suas artimanhas e tramas para manter-se e manter certos escolhidos no poder, usando a genética e o poder da mente ancestral, os Treilaxu com suas artimanhas, clonagens e dançarinos faciais que se transformam no que querem, os Ixianos e suas fabulosas invenções tecnológicas e a Corporação representando os gananciosos dominando as viagens espaciais, os Fremen, representando a humanidade na sua mais pobre representação, vivendo no deserto, cheio de lendas e tradições e o poderoso Shaid Ulud, o grande verme que vive nas areias do planeta Duna criando a Especiaria ou Melange, produto ambicionado e desejado por todos cujo uso dá aos membros da corporação o poder de criar os campos para viagens espaciais, às Bene Gesserit o poder de unir-se aos seus ancestrais e a quem usá-la o poder de prolongar a vida e ter dons pregnotivos.


    Duna


    É o primeiro livro e o melhor, justamente por retratar o universo esquisito e ao mesmo tempo tão humano. Inicia com a tomada pelo poder dos Adreides sobre Duna, ou Arrakis, planeta árido e desértico sob o domínio dos Harkonnen. Este planeta é o mais invejado do império justamente por ser o único onde é produzida a Especiaria. É uma história de reviravoltas e de um poder imaginativo fantástico. Já foi filmado ascorosamente por David Linch, refilmado pela Fox como série, mas o livro continua imbatível.


    O Messias de Duna


    Segundo livro que aproveita o universo criado pelo primeiro e continua a história do Muad Dib, o Messias que surgiu no final primeiro livro e de sua irmã Santa Alia da Faca. Paul Adreides, o Muad Dib, consolida seu poder sobre o império e as forças das casas dominantes. Consegue prender a atenção porque acaba trazendo para primeiro plano personagens que no primeiro livro apareciam em segundo plano.


    Os Filhos de Duna


    Agora a história continua nos dois filhos do Muad Dib, Leto II e Ghanina. Alia torna-se a regente quando o Muad Dib desaparece no deserto de Duna. É um retorno também dos desaparecidos Harkonnen através do Barão, um dos mais asquerosos personagens já criado na literatura e tão bem personificado por David Linch no filme Duna. Ele ressurge através de Alia e sua ligação aos ancestrais, ela conseguiu esta proeza ainda no ventre da mãe. O Barão acaba dominando Alia e consequentemente Duna e começa a perseguir os dois filhos do Muad Dib para matá-los. Uma boa trama e um bom suspense e principalmente no final ao revelar-se o poderoso Leto II.



    O Imperador Deus de Duna


    Aqui já se passaram 3.500 anos desde os últimos acontecimentos do livro anterior. Duna já não é mais deserto e não tem mais os grandes vermes e nem produz mais a ambicionada especiaria. Leto II ainda domina o universo conhecido. É eterno, é Deus, é único. As viagens espaciais foram proibidas, a humanidade não tem liberdade e tudo funciona como ele quer. Domina e forma dominantes. O único senão na história é a sua teimosia em reclonar o guardião dos Adreides, Duncan Idaho. Não fica claro o porque dessa obsessão. Os Dunca não se encaixam no novo mundo, vivem rebelando-se e acabam sempre sendo mortos ou pelo próprio Leto ou por sua guarda, representada por uma nova máquina de guerra: As Oradoras Peixe, um exército apenas de mulheres. Leto faz uma apologia à capacidade e superioridade de um exército de mulheres em relação a um exército de homens. O livro é pouco lento e parado em relação a ação. Frank Herbert perdeu-se um pouco na história e a fixação no personagem Duncan Idaho acabou por deixar toda a história sem sentido.



    November 20

    Amanhã

     

    “Concebo o amanha como uma entidade, um ser palpável, que está ali, a minha espera.” A moça virou-se para o rapaz com um misto de satisfação e regozijo no rosto. A frase parou no ar, suspendeu-se sob as cabeças das pessoas e entrou em cheio em minha mente.

    Naquele instante, parado na fila para pegar o ônibus eu estava mais preocupado com o maldito coletivo que, como sempre, estava atrasado. Pobre prefeito! Era xingado! E coitada da mãe dele se soubesse do que era chamada teria preferido que o filho fosse até mesmo um desconhecido gari do que o difamado prefeito. Quanto perde um político por estar uma porcaria de ônibus atrasado! Era só o que se comentava na fila de ônibus. Nunca ouvi comentário diferente de futebol, novela ou política. Por isso aquela frase me pegou, e como!

    O que ela quis dizer? Como ser o amanha algo palpável? Entidade? Estranho! Tudo isso foi achegando-se em minha mente, mexendo em meu raciocínio e não pude mais parar de pensar a respeito, teria que analisar a questão para chegar a uma conclusão. Precisava tirar conceitos e ir à procura do que ela disse. Não foi só a frase, a expressão do rosto dela é que marcou mais. Ela creditava e mais, sentia satisfação naquilo. Tinha prazer em pensar daquela forma. Era como se ela fosse uma visitante do amanhã no ontem. Se eu pudesse falar com ela, mas sequer pensei nisso naquela hora, sem explicações e com a cabeça cheia de amanhãs, não conseguia pensar em mais nada. A que amanhã ela se referia? O que vem depois do hoje? Bem que poderia afinal sempre nos referimos a esse dia como o cúmplice que nos aguarda para uma conspiração. Afinal o amanhã saberá tudo de hoje e até mesmo de ontem, portanto somos nós mesmos muito mais instruídos e sábios. O que mais queremos, na verdade é estar lá, com ele, seja para saborear as coisas boas que acontecerão seja para fugir das ruins que aconteceram. Afinal essa de que “gostaria que isso durasse eternamente” não é nada mais do que um transporte para o amanhã do que temos ou sentimos agora, o agora eternizado. O hoje se vai e tendemos sempre a eternizar o que ele trouxe de bom.

    Ou o amanhã da moça seria o futuro incerto e duvidoso? Estaria ela referindo-se à época vindoura? Esse enigma sem sentido e muitas vezes até amedrontador que sequer queremos imaginar? Não gostaria de ter esse senhor a minha espera. Não penso nele afinal é algo tão distante quanto às estrelas, mas, presente também no dia a dia e com que violência nos é lembrado. Não deixam sequer um pouco de esperança, quem fala desse amanhã, só consegue ver guerras, catástrofes e calamidades. Estudos, pesquisas e mais estudos são sempre feitos, publicados e transmitidos pelos meios de comunicação como se quisessem convencer a todos que esse amanhã jamais chegará. É a própria antítese em favor da tese, deixando a todos estarrecidos e amedrontados. Talvez seja mesmo dessa forma que se consiga convencer a todos que temos um futuro, mas pergunte a qualquer um na rua se acredita nisso. É uma boa questão para analisarmos, afinal não estamos falando de tudo o que temos? Sim como não? O futuro é o hoje eternizado é o tempo que se tem à frente, sem limites. Considerando o tempo no contexto criado pelo homem.

    A questão do tempo/espaço confunde muitas mentes e as pessoas não conseguem entender a relatividade no que toca a estes aspectos. Na verdade não existe o tempo e o espaço com passado, presente e futuro. Um evento ocorre independente de tempo e do espaço, um evento só pode ocorrer se estiver em uma linha continua de eventos anteriores, portanto, tudo acontece como deve acontecer. Seria possível, para um observador externo verificar todos os eventos como anteriores e posteriores caso não existisse nenhuma concepção de passado, presente e futuro apenas a classificação como eventos anteriores e posteriores. Seria, portanto, possível ver o futuro, bastaria saber que linha de eventos seguir, pois cada evento ocorrido proporciona uma finitude de vários eventos que podem ocorrer e deverá ocorrer independente de se ter optado por seguir por este ou aquele caminho. Para o observador externo os eventos estariam sempre lá, seqüenciais e podendo ser visualizados, independente de terem ocorridos antes ou depois de um outro evento.

    Dessa forma chega-se a conclusão que o destino existe? Sim! Você poderia considerar desta forma, que o destino existe, mas, e os eventos imprevistos? Aqueles que nada têm a ver com as suas escolhas ou com as escolhas de pessoas que convivem com você? Por exemplo, a queda de um asteróide? Uma enchente? Eventos que fazem parte do universo e que seriam identificados como naturais? Há como prever estes eventos? De alguma forma o homem está domando a natureza e na sua interação tenta entendê-la e desta forma prever estes eventos para que consiga ou afastar-se do espaço/tempo onde estes eventos possam ocorrer ou evitá-los através da anulação das suas causas. Para isso usa o tempo que existe apenas na sua mente. Talvez esta seja a maior descoberta do homem desde os primórdios de sua consciência. Esta seria a forma de limitar o homem no espaço em que vive para poder sobreviver aos eventos imprevistos, eventos estes que independem de ações ou de eventos que ele próprio esteja causando.

    Tirando-nos o futuro nada teremos nada seremos, portanto ele é a esperança, a esperança que sempre será a última a morrer. Assim chegamos à conclusão que deveremos evitar previsões de futuros negros, na verdade, elas são para convencer do contrário, só que não andam fazendo o efeito esperado, mas com crédito ou sem crédito, a gente continua. Nada melhor do que um dia após o outro e afinal de contas amanhã é muito cedo para a humanidade.

    Falei com amigos, convenci pessoas, fiz uma revolução com tudo isso. Não deixei por menos, de qualquer forma foram dias de pensamentos e labuta em favor do amanhã. Ninguém entendeu nada e mesmo aqueles que conseguiram captar um pouco de minha angústia não saíram de sua visão limitada ao tempo criado por tantos e tantos eventos imprevistos que aconteciam em suas vidas. Impossível convencer que a maioria destes eventos eram causados por eles mesmos e que se quisessem saberiam exatamente onde poderiam chegar e prever o que poderia acontecer.

    Algum tempo mais tarde, novamente eu na fila ouvindo falar do prefeito, quando... Vejo quem? A moça do amanhã. Sorrio para ela, que vira o rosto. É claro, não me conhece, chego até ela e cumprimento-a, explico-lhe a situação, ela me diz calmamente: ”Não sei do que você está falando, nunca disse isso, se disse não lembro”. Bom! A moça realmente não lembrou mais de nada, ela sequer acreditava no dia de amanhã, todos os dias eram iguais e o hoje era o todo sempre. Os pensadores cientistas e estadistas que se preocupassem com o amanhã, enquanto ela vivia o hoje. Não me enganei de pessoa, tenho certeza, mas talvez aquela frase tenha sido pega solta em algum lugar e ela disse ao rapaz para impressioná-lo. Não sei, só sei que a impressão mais forte que tenho na mente é a expressão do rosto dela que não consegui esquecer. Quem sabe, amanhã consiga esquecer.


    A Era Do Globalismo - Octavio Ianni

     

    São realidades sociais, econômicas, políticas e culturais que emergem e dinamizam-se com a globalização do mundo, ou a formação da sociedade global”. Este é o conceito que é definido pelo autor. Entretanto ele apenas concebe estas forças que empurram o mundo com apenas uma alavanca: o capitalismo. É analisado no livro a diversidade que cada vez mais se torna única, o mundo agrário que se desagrega e acaba tudo nas grandes cidades globais onde ninguém é ninguém mas que acabam fazendo parte de tudo. Analisa o regionalismo, o nacionalismo em face deste globalismo que vai destruindo tudo. Dá uma pincelada em raças e povos e prenuncia implicitamente uma nova raça de seres globais. Discute os novos neoliberalismo e neo-socialismo como filhos e conseqüências naturais do globalismo. Tudo no livro é implícito, nada é definitivo ou mesmo afirmado, a sensação é de que o autor via tudo mas não quis concluir nada porque nada pode ser concluído ainda. É repetitivo na afirmação de que o capitalismo é o propulsor de toda esta alteração global. Ao se chegar ao final do livro falta um fecho, uma conclusão, falta algo que afinal deveria dizer o que realmente é o globalismo?

    História Universal Da Infâmia – Jorge Luis Borges

     

    Várias narrativas curtas e que contam a vida de personagens de diversas nacionalidades. Sempre achei fantástica a capacidade de síntese de Jorge Luis Borges, ele consegue num parágrafo pequeno de poucas linhas expor com clareza e sensibilidade a vida de uma pessoa. É como ele mesmo diz no prólogo, reduz a vida de pessoas a duas ou três cenas. É claro, trata-se como tema central a infâmia e então temos uma gama de infames.

    A Grinalda Preciosa - Nagajurna

     

    Aquele que não estima a senda da excelente doutrina

    - Radiantre de ética, generosidade e paciência –

    Injuria seu corpo e envereda

    Por falsos caminhos como atalhos da floresta


    Emaranhando seu corpo em viciosas

    Aflições, ele adentra por um longo tempo

    Na pavorosa floresta da existência cíclica

    Em meio a árvores de seres sem fim.



    Nagajurna – A Grinalda Preciosa – versos 12,13

    Estes dois versos são um pequeno exemplo do que será encontrado neste grande clássico.

    É um livro de cabeceira, edonista, sem dúvida, mas quem não precisa um pouco de edonismo na vida?

    A Morte de Ivan Ilitch – Leon Tolstoi

     

    Considerada a novela mais perfeita da literatura mundial, é curta, sintética e retrata a vida de uma pessoa comum. Ivan Ilitch nunca fez nada que o destaca-se dos demais, viveu normalmente sem muitas aspirações ou ideais. Conseguiu um emprego médio, casou e teve filhos e agüentou uma vida medíocre e as pessoas que o cercavam. Criou um grupo seleto de “amigos” que jogavam cartas e agüentou uma mulher insatisfeita e fútil. Sua vida profissional tinha frustrações e satisfações, normais, como todos. Inteligente, sagaz e contribuía para uma sociedade baseada em suas visões da vida. Então, ou, mas, até que começou a morrer. Quando toma consciência disso sua vida muda, sua visão do mundo muda e então ele entra em crise. O apego a sua vida medíocre lhe incomoda e sem saber por que tem este apego, quer viver mais e a pergunta para que viver mais martela sua mente a todo instante. Os defeitos e hipocrisias dos outros que antes não lhe incomodavam passam a ser insuportáveis. A vida que viveu lhe parece insuportável e até mesmo sua doença é insuportável e é comparada a sua vida. Então, ao final uma grande revelação lhe dá a paz e ele morre tranqüilo.

    July 15

    Um Antropólogo Em Marte - Oliver Sacks

    Livro interessantíssimo do neurologista inglês que adotou o EUA como país. Nele você entra em contato com uma gama de personagens reais com quem ele travou conhecimentos clínicos e até mesmo por interesse. Daltônicos, Autistas, Cegos, etc... Ele tenta provar que estas pessoas tomadas por situações limites e dramáticas desenvolvem na mente uma capacidade desconhecida por aqueles que vivem uma vida normal usando apenas 10% de suas capacidades mentais. É uma pergunta que você mesmo se faz ao final: Se uma pessoa normal (com todas as capacidades ativas) conseguisse tirar de sua mente um pouco mais do que o normal, do que seria capaz? Todos sabem disso, mas por que precisamos ser privados de uma capacidade para desenvolvermos outras, as vezes fantasticas?
    July 14

    O Mundo Assombrado Pelos Demônios - Carl Sagan

    Empenhado em divulgar e popularizar a ciência, Carl Sagan faz deste livro uma arma contra os crédulos, místicos, exotéricos e Cia Ltda. É uma verdadeira bandeira do ceticismo fincada em meio há um mundo que prefere acreditar em tudo mesmo quando é provado a charlatanice, chega a ser até chato em alguns momentos de tanto repetir a mesma coisa mas tem muita informação interessante em relação à ciência e principalmente em relação à sociedade norte americana tecnicista e tão crédula ao mesmo tempo.
    June 07

    Lágrimas Do Dragão - Dean Koontz

    Esse é de arrepiar. O assassino é um mutante, terrível e sem escrúpulo algum. Tique-Taque avisa que vai matar e depois realmente mata, sem piedade e com requintes de pura maldade. É interessante porque você termina este thriller sem se importar com o motivo do assassino, ele só poderia ser assassino, é isso.
    June 02

    Do Fundo Dos Seus Olhos - Dean Koontz

     
    Um Thriller de tirar o fôlego. Dean Koonitz está sendo considerado o novo mestre do horror e do suspense. Discute os novos conceitos, ainda discutíveis, da mecânica quântica e sua reflexão nos relacionamentos humanos e no entrelaçamento de ações e vidas onde tudo o que acontece tem um motivo e uma consequência determinadas.  Você não vai parar de ler até chegar ao final.
    April 20

    Rei Morto, Rei Posto - Mary Renault

     

    É um livro clássico, escrito em 1958. Trata da lenda de Teseu, aquele que matou o Minotauro e se tornou rei de Creta. É um mito antigo e conhecido, mas a autora consegue num exercício de imaginação sem igual transformar a história mitológica em história humana. A crueza da descrição nos faz ver que a história humana sempre foi feita de proezas transformadas em lendas e mitos para o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos e oprimidos. Muitos escritores têm a capacidade de descrever uma história mitológica de forma fantástica, foi assim com Nikos Kazantzaski, você deve conhecê-lo por A Última Tentação de Cristo ou Zorba, o Grego, ele também escreveu sobre a lenda em No Palácio do Rei Minos, no entanto ateve-se ao mito e com uma descrição fenomenal à altura de seu talento. Mary Renault, entretanto, desce à terra e cria um universo crível e fantástico para mostrar a evolução humana, o eterno círculo de crescimento, estagnação e morte onde os bárbaros sempre dominam os civilizados e impõem um novo renascer. É humano e história feita por humanos, não temos eventos fantásticos e nem criaturas além de humanos e animais comuns, mas a história é a de Teseu e o Minotauro. Interessante não? Interessante que isso me lembrou um filme, clássico também, Passolini, se alguém lembra, se não procure na sua locadora, Medéia. A lenda do velo de ouro e Jasão e os Argonautas. História humana, contada para humanos e não deixa de ser a mesma história.

    September 27

    “Dionísio versos o Crucificado”

     

    Muitos jovens hoje em dia lêm Nietzche  e consequentemente saem por ai achando que a melhor forma de viver a vida é dar vazão aos seus instintos básicos para atingir a perfeição e consequentemente tornar-se um super-homem. Daí a conclusão a que muitos chegam que é melhor não ter limites em relação a sexo, drogas e diversão. O que mais um jovem quer? São estes seus instintos e por que reprimi-los?

     

    No epigrama de Nietzche “Dionísio versos o Crucificado”, Dionísio personifica o  super-homem, aquele cujos impulsos básicos são sublimados continuamente em formas mais elevados, em contraste com o Crucificado que desperdiça sua vida em tentativas fúteis e autodestrutivas de renunciar a seus instintos primitivos.

     

    Superar a si mesmo, continuamente sublimando seus impulsos e desejos, transformando estas energias em formas elevadas e de maneira equilibrada. Moderação e não licenciosidade seria a chave para uma vida equilibrada e esteticamente agradável. De nada serve renunciar a seus instintos e vontades: Não fazer é pior do que fazer errado.

     

    Sublimação não é realizar seus instintos básicos tomando um ecstasy e saindo por aí para encontrar a primeira pessoa que consiga satisfazer seus desejos sexuais. Sublimar é reverter este instinto para algo construtivo, mais especificamente em relação à construção de algo que lhe traga benefícios estéticos e morais para si mesmo e para a comunidade, por isso, o mais indicado, segundo Nietzche, seriam as artes. Se todos sublimassem seus instintos e principalmente os mais licenciosos, teríamos mais e mais gênios e verdadeiros gênios, naquele campo onde resolveu se especializar.

     

     

    September 12

    Criação

     

    Desse sol que vida trás

    Tanta cria que vivaz

    De seu seio faz o mel

    Que alimenta o cordel

     

    Que a terra vê e compraz

    De sua lenta e terna paz

    Sela sempre com anel

    Leve ruptura de bordel

     

    Onde irá parar tal escarcéu

    Se altos sons sobem aos céus

    Se clamores já foram ao léu

    Um chorar de rostos sem véu

     
    August 30

    A Gênese Africana - Contos, Mitos e Lendas da Àfrica - Leo Frobenius e Douglas C. Fox

     
    Leo Frobenius é um antropólogo considerado um especialista em pré-história africana, especialmente em relação à mitos e lendas do continente negro. Ele coletou e compilou centenas de lendas e mitos antigos cujo trabalhou publicou em diversos volumes. Este livro é uma coletânea realizada por Douglas C. Fox, cuja introdução explica a ordem e alguns aspectos culturais das lendas selecionadas. A tradução brasileira, muito bem feita por Dinah de Abreu Azevedo inlui um prefácio interessante e sucinto sobre Frobenius e sua obra de Alberto da Costa e Silva além de trazer também ilustrações de diversos tipos.
    August 16

    Eragon - Christopher Paolini

    Qualquer semelhança com a série O Senhor dos Anéis de Tolkien terá sido mera coincidência? É uma pergunta inevitável ao se ler este livro. Pretende ser uma triologia, já foram publicados este Eragon e Eldest. Em vez da Terra Média temos Alagaésia, habitada por Humanos, Elfos, Anões, Espectros e Urgalls. A variante é a simbiose de Humanos e Elfos com os Dragões, seres inteligentes e cheios de magia. A história, como sempre é o empate do Bem contra o Mal e os humanos, como sempre, no meio desta luta acabam dividindo-se. O Autor é jovem, nascido em 1983, começou a escrever Eragon com 15 anos. O livro é bem escrito, demonstra uma maturidade e conhecimentos da alma humana que o jovem escritor deve ter encontrado em outras fontes além da sua pouca vivência. Faz bonito e dá o seu recado, tanto que o livro já esta virando filme e a meu ver, se não fosse O Senhor dos Anéis, seria originalíssimo. Não conheço ainda, nenhuma história com Dragões como os descritos pelo autor, mas me pergunto se foi uma criação sua ou se é também baseado em alguma história já escrita. Para descontração e diversão, serve, mas que a todo instante parece se estar lendo a obra de Tolkien com o adicional de Dragões, em vez dos Anéis, isso parece.

    July 20

    Jean Paul Sartre - Entre Quatro Paredes

     

    Peça teatral em que três pessoas encontram-se trancadas em uma sala, elas sabem, você aos poucos vai sabendo, que estão mortas. Vem seu enterro, acompanham as vidas dos outros que continuam... Enfim, aos poucos vão se dando conta que estão trancados na sala e apenas os três, ninguém entra ninguém sai. Discutem banalidades, disputam espaço, olham o seu ex-mundo se desmontando e se desfazendo a partir do momento que todos os seus convivas os esquecem e começam a dar-se conta da dependência um do outro. Esta dependência vai crescendo de tal forma que os três foram um triângulo interdependente impossível de desfazer ao ponto de quando se vêm livres da sala, preferem trancá-la novamente e ficarem juntos. A peça é simples e bem curta e trata da percepção angustiante de que só somos alguém a partir do momento que temos alguém para projetarmos nosso EU.

    July 19

    Natureza Humana - D. W. Winicott

    Há muito tempo queria ler este livro. Imaginava uma obra volumosa, cansativa e para minha surpresa o livro possui apenas 200 páginas, fácil de ler, sucinto e muito objetivo. É uma obra inacabada mas nem por isso impressionante. O autor usa um título que ele mesmo achava um empreendimento ambicioso, mas expõe de forma clara e numa linguagem simples toda a sua experiência como psicanalista. Mesmo os apontamentos de pés de página servem de material para pesquisas e muito pensar. É um livro de cabeceira, para consultas e mais consultas e com certeza faz com que a Natureza Humana seja vista de forma evocativa e emocionante através da perspectiva das Relações Objetais, teoria esta cujo autor ajudou a fundar.
    July 11

    Tempo e Solidão

     

    Acordo com o toque do telefone

    Um fio de esperança ascende em mim

    Ah se eu pudesse saber

    Quanto de mim ainda resta em seu ser

     

    A ausência sempre gerando angustias

    A fantasia vive criando eventos

    Enquanto a noite rouba meus dias

    O dia se perde em devaneios

     

    Pra quem não sabe o que fazer

    Maquiar momentos se torna lazer

    Um sonho a mais não interessa

    Para quem muitos sonhos viveu

     

    Não ter o seu sorriso sincero

    Não ter o seu amor presente

    Não ter as horas juntos e mágicas

    Não ter o carinho compartilhado

     

    Entretanto compensações existem

    No fluir contínuo da finitude e gozo

    Lembranças de tempos mutantes

    Eternos em memórias cíclicas